Quando a coerência se perde: eleitores do PT que criticavam Bolsonaro agora defendem os erros de Lula
Nos últimos anos, o Brasil tem vivido uma das fases mais polarizadas de sua história política. O embate entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e os eleitores do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva dividiu opiniões, famílias e redes sociais. No entanto, um fenômeno curioso vem chamando a atenção: muitos eleitores que criticavam veementemente os erros de Bolsonaro agora parecem tolerar — e até justificar — atitudes semelhantes por parte de Lula e de seu governo.
Essa mudança de postura revela um traço preocupante do comportamento político brasileiro: a dificuldade de manter coerência ideológica e a tendência de julgar as ações públicas não pelos seus méritos ou falhas, mas pela identidade política de quem as pratica.
A crítica seletiva e o “silêncio conveniente”
Durante o governo Bolsonaro, temas como meio ambiente, economia e ética no uso do dinheiro público eram constantemente alvos de indignação entre militantes e simpatizantes do PT. Nas redes sociais, cada declaração polêmica ou medida controversa gerava ondas de protestos e manifestações.
Agora, no governo Lula, muitos desses mesmos militantes se calam diante de escândalos, erros de gestão ou contradições políticas. Questões como a aliança com figuras antes criticadas, os problemas na Petrobras, ou a influência política em decisões econômicas têm sido recebidas com um silêncio que chama atenção.

Para especialistas em comportamento político, isso é resultado de uma “cegueira partidária”, fenômeno em que o eleitor defende ou ignora erros dependendo de quem os comete. “Quando a lealdade ao partido é maior que o compromisso com a verdade, a democracia perde um de seus pilares: a crítica consciente”, explica o cientista político André Nogueira.
O ciclo da idolatria política
A idolatria por figuras políticas — seja Lula, Bolsonaro ou qualquer outro líder — transforma o debate público em uma arena de torcidas, e não de ideias. O eleitor deixa de avaliar políticas públicas e passa a agir como defensor incondicional de um “time político”.
Enquanto isso, temas essenciais para o país — como educação, saúde e segurança — acabam ficando em segundo plano. A consequência é uma sociedade dividida, onde a crítica construtiva é confundida com traição e a oposição é tratada como inimiga.
A importância da coerência
Em uma democracia saudável, a coerência deve ser o ponto de partida. Criticar os erros de Bolsonaro e ignorar os de Lula (ou vice-versa) é fechar os olhos para o verdadeiro problema: a falta de responsabilidade e transparência no poder público.
Seja qual for o governo, o cidadão consciente precisa manter o senso crítico e cobrar coerência, ética e compromisso com o interesse coletivo. Afinal, o Brasil não avança quando apenas “muda o lado da bandeira” — mas quando seus eleitores exigem seriedade de todos os que ocupam o poder.